A incerteza vivida nos últimos meses mantinha-se presente
firmemente na minha cabeça. O quadro clínico traçado uma semana antes não
agoirava um dia pleno.
Deitei-me com ela,
dormi com ela, levantei-me com ela e levei-a comigo em cada minuto do dia. E foi
esse minuto a minuto, talvez, o meu maior tormento.
Tudo começou ainda
nas férias quando no último de três treinos alentejanos o joelho direito acusou
dor. Salto no tempo até ao sábado passado poupando a lenga lenga habitual das
lamurias lesativas. Já bem farto delas estou na vida, não vale a pena perder
tempo a escreve-las e le-las.
Já naquela altura o
assunto Tróia-Sagres saltitava entre conversas. Ao que parece o evento em
questão é para muitos uma espécie de objectivo principal do ano. É visto como
prova onde só os duros se aventuram, uma jornada épica que pode durar entre
seis a oito horas, mais ou menos consoante a capacidade individual (ou de
grupo) de cada um.
Não é de espantar
portanto que este ingrediente apimente a curiosidade e a vontade preponderando
a tendência para o aglomerado que o ser humano em geral tem para coisas do
género, e às seis da manhã era ver o acondicionamento do parque automóvel da
zona de embarque dos Ferry´s em Setúbal a encher, alimentado por um filão de
carros, carrinhas, autocarros, peões com bicicleta na mão, ciclistas, tal
formigas de volta do formigueiro. Um autêntico frenesim a que só três ou quatro
barcos darão vazão até que todos tenham alcançado a outra margem do rio azul
que em certos dias tem a mesma cor do céu.
Outros há que vêm
de Este e de Sul ao que é perfeitamente normal que também a outra margem
vindime cachos e cachos de participantes que se juntam aos mosto que os
“grandes barris” Ferry´s vão descarregando em Soltroia.
Não há organização.
Não se trata de uma prova nem de um passeio ou de qualquer outro tipo de
evento. É simplesmente um movimento que tem crescido no tempo e no número de
intervenientes ano após ano. Começou com um apenas. Hoje há quem sublinhe serem
mais de 3 milhares. É impossível contabilizar.
Aquilo que foi e é
a causa honrosa de um homem, virou a de muitos. Certamente que os motivos que
levam os milhares a participar serão os mais diversos, tal não seja que
provavelmente uma pequena minoria nem saberá a origem de todo este aglomerado.
Não há hora de
partida. Não há uma linha de partida pintada no alcatrão. Não há insufláveis,
nem placards de publicidade. Não há musica em altos berros nem em baixos. Não
há um megafone a gritar instruções. Nada.
No escuro da noite
vão brotando das bermas para a estrada pirilampos formando um afluente longo,
interminável e iluminado de ínfimas luzes brancas e vermelhas intermitentes ou
permanentes.
A impaciência
rapidamente é transformada em pedaladas firmes. O som é o de enxame enorme. É
ouvir as correntes a rolar nos carretos, as mudanças a estalar, os cubos a
zunir. Uma sinfonia que bem poderia ser de uma orquestra em ensaio ainda nos
preparos de afinação.
A estrada está
repleta. É ver ciclistas a perder de vista até ao horizonte. Ainda que seja
noite cerrada já se distiguem as suas silhuetas contra os primeiros sinais do
raiar do dia.
Cheira a campo e
praia e a águas de lodo. Está frio. É ve-los forrados a lycra e similares da
cabeça aos pés a acotovelarem-se uns aos outros esfregando as mãos, reforçando
o fecho dos zippos que já nos limites dos seus limites não fecham mais. Ombros
tensos arrebitados para cima apertando os pescoços. Alguns há que nem a cor da
pele se vê, apenas o branco dos olhos. Raros como eu aventuram-se em calções.
A faixa de rodagem
está completamente ocupada. De quando em quando um automóvel inrompe pelo meio.
São na maioria as viaturas de apoio que se vão adiantar no terreno e parar em
locais previamente estabelecidos consoante a vontade dos ciclistas que vão
apoiar. Outros incompreensível e desagradavelmente seguem atrás do seu grupo.
Três ou quatro
quilómetros mais abaixo e ainda se vêm carros nas bermas e até autocarros ainda
a descarregar mais ciclistas.
Em sentido
contrário o transito não é menor. São os que vêm de outras paragens. Seguem
para a ponta da península. Fazem sinais de luzes, buzinam e alguns mais afoitos
até assomam pelas janelas e emitem gritos de incentivo para os que já iniciaram
aquilo que eles também irão iniciar dentro em pouco.
A seguir serão
horas intermináveis em cima de uma bicicleta. Rectas sem fim, o perpetuar do
movimento de pedalar, o nunca mais alcançar um horizonte que quanto mais se
pedala na sua direcção mais longe fica. Mais cedo ou mais tarde as conversas
animadas, os sorrisos e as gargalhadas darão lugar ao silêncio. Vão-se esbater
contra o esforço de um dia que será longo. E até as gargantas mais afoitas
daqueles que gostam de se mostrar presentes serão engolidas pelo espectro do
tempo a passar lento.
Aos olhos da alma apenas chegarão os sopros do
vento que não lhes darão tréguas por um segundo que seja e serão por ele
permanentemente fustigados até a levarem à surdez.
É nesse
momento que deixo de ouvir, de sentir, de pensar e de ser. Apenas as pernas
movimentam. Quando voltar a escutar estarei em Sagres. Ouvirei o som do apertar
de abraços, do pousar das bicicletas, dos sorrisos, da dor, do alivio, da
sensação de dever cumprido.
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