Na estrada, os carros odeiam as motas, as bicicletas, as carroças, os tratores e os piões;
As motas odeiam os carros e os peões;
As bicicletas odeiam os carros e as motas;
Os tratores odeiam as carroças;
Os peões odeiam todos;
As carroças não odeiam ninguém;
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Paremos por um momento e analisemos as coisas:
Todos eles constam do Código da Estrada, cada um deles com o seu protagonismo, todos em comunhão na mesma estrada.
Então a permissa é que temos que aceitar que a estrada é de todos eles.
Mas há algo que não está no Código e nem dele precisamos. Muito antes dele há um denominador comum em todos eles:
O carro é conduzido por um ser-humano, a mota também, assim como a bicicleta, o tractor e a carroça. E o pião não conduz nada senão os seus sapatos mas também é um ser-humano.
O ser-humano é um conjunto de células que unidas entre si formam vários tecidos conjuntivos e todos juntos formam o corpo humano e isto é assim para todos os seres-humanos, ou seja, somos todos iguais.
Um ser-humano é uma vida. Mas não é só sua. É um pai, uma mãe, um filho ou filha, um avô, uma avó, uma tia, um amigo e por aí fora.
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Curiosamente, somos pouco humanos com os seres humanos com quem convivemos na estrada. Um ódio mesmo assolapado. Isto não deixa de ser esquisito sobre o pensamento humano pois todos nós temos familiares, amigos, conhecidos em todas as vertentes que partilham a estrada.
Pode por isso ser o automóvel, o filho do meu amigo, pode a mota ser o pai do meu aluno, pode o tractor ser o médico da minha mãe e em diante num sem fim de circunstâncias que realmente podem.
Pode por isso também inclusive eu hoje ser um ciclista e amanhã ser também um automobilista, um condutor de carroça e condutor de mota....Pode! Pode ser alguém que trave e evite uma guerra, salve milhares de vidas. Pode.
Curiosamente somos tão humanos quando toca a sentir a dor e a perda dos outros: somos os primeiros a ser solidários com quem está e vive em guerra lá longe, na Ucrânia, com quem está vitima de uma outra guerra contra as forças da natureza, lá longe em Leiria. Somos tocados por histórias horrorosas de crianças e pessoas que são mutiladas e torturadas ou abusadas, sequestradas, violadas. Somos tão solidários...
Mas odiamos quem nos está perto, na estrada, no clube rival ou mesmo na porta ao lado da nossa.
Em suma, somos humanos mas devemos muito à nossa intelectualidade.
Odiamo-nos na estrada, amamos a quem está em dor lá longe.
Isto é-me tudo tão estranho.
Depois? Depois vem o Natal e desejamos Paz no Mundo.
A moral desta pequena hedionda descrição é que há demasiado ódio. E a frase podia e devia ser somente "a moral desta pequena hedionda descrição é que há ódio".
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